Escrito por @Rapha_Limma Seg, 30 de Abril de 2012 17:55
BLOG - CONTOS
in illo tempore (Naquele tempo)
Em minha fuga do ocaso da cervejaria, saio correndo como louco e rapidamente o cenário muda, e me vejo em uma floresta tropical fechada. E ouço uma buzina de trem, mas não vejo trilhos, e rapidamente o mesmo começa a me perseguir, tem um aspecto horrível, os trilhos parecem cobras de fogo, e vem acompanhado de um imenso nevoeiro.
Outra mudança de paisagem, e estou caindo de um imenso penhasco, enquanto caio abutres mergulham sobre mim, e me bicam a ponto de arrancar grandes pedaços de minha carne, que rapidamente se recompõem em um dor insuportavél. Mas que queda, parece que nunca vou chegar ao fim. E realmente não cheguei à outra mudança de local, estou no ártico sem roupas, e não sinto frio. Algo enorme vem voando em minha direção, usa o sol para me dificultar a visão, cada vez mais se aproxima, e o medo parece o único sentimento que existe dentro do meu corpo. A tal criatura chega ao chão posso observa-lá perfeitamente, e veio dos céus, e era um anjo, o mais belo dos anjos. E quem disse que essas criaturas não tem sexo? Nunca os viu, era bela. Linda morena de olhos expressivos, que hora fulguravam em verdes, e depois em castanhos claros, cabelos negros, e aparente sensação de poder e sedução. Ela me olhou em meus olhos, e assim leu todas as minhas angustias, e me soltou um sorriso, foi o mais belo que já vi, e afirmo que jamais verei outro igual. O sorriso me desarmou, parecendo um relaxante, e me fez baixar totalmente a guarda, ela se aproximou e me abraçou, e falou em meu ouvido – faz tempo que te observo minha criança. E o vejo em suas andanças que transpassam os tempos, e a sua segurança. Mas agora não tema, você me tem e eu o tenho, e vamos ficar juntos, até o dia em que você quiser. Aquilo soou como um alento para o meu coração, pela primeira vez, desde que tudo isso começou eu me senti relaxado o suficiente para dormir, mas não antes sem fazer umas perguntas. Mergulhado em seus braços quentes, no lugar mais confortável em que já estive, pergunto: Onde estamos? No ártico meu amor – ela responde, e os seus carinhos, me deixam cada vez mais confortável, ao ponto de achar que já amava mesmo antes de conhecê-la. Mas eu não sinto frio. Porque você está fora do tempo. E isso é possível? Totalmente, de acordo com o seu mundo eu não sou possível. Tantas coisas no meu mundo dizem não ser possível, mas o gato me mostrou muitas coisas. Querido, acredito que você precisa saber muitas coisas sobre o gato vermelho. Sei que ele é o tempo, e me falou sobre realidades, que me ensinaram a viajar no tempo. Mas você não sabe que o gato controla todas as viagens, e ele pode manipular os locais para onde você possa ir. Então você quer me dizer, que ele me enviou para a Alemanha no pré-guerra? Sim. E tudo que eu fiz lá, estava sendo manipulado por ele? Provavelmente. Mas nada aconteceu, eu tentei mudar os fatos para evitar o ocorrido. Não é assim, as suas ações influenciaram diretamente nos eventos que culminam naquela época. Não me movo mais penso. É incrível como não consigo sair desse estado de tranquilidade, mesmo sabendo que fiz coisas horríveis, acho que até dos meus pesadelos vou me livrar, poderei enfim dormir em paz? Estou ficando egoísta? Abraço-a um pouco mais forte, como se segura-se algo que não se quer perder, e pergunto: o que mais eu preciso saber sobre o gato? E porque ele me despertou? Ela me faz umas caricias, e me beija na testa, e me diz: tudo faz parte de uma grande guerra, que teve inicio antes dos homens nascerem, e envolvem muitos deuses, pois por muito tempo a humanidade ficou a mercê do humor dos deuses, até que um venceu a grande guerra, e deu a paz que os homens tanto desejavam. Quem é ele? Vocês o chamam apenas de Deus. Mas o gato me disse que ele é mal, e por isso ele tem que encontrar os despertos, para que possamos ver o mundo real. O mundo real é muito duro meu amor, vocês não precisam vê-los, tomamos conta dos problemas para vocês. E podemos ficar tranquilos assim? Houve um tempo, em que os homens conheciam o mundo real, e o sofrimento era enorme, e eles se juntaram a deus em sua grande guerra contra os deuses opressores, e o gato, era um dos nossos inimigos. E o que foi prometido aos homens? Um mundo de justiça e igualdade, onde eles poderiam governar sem a intervenção dos deuses. Mas isso não acontece. Mas um dia aconteceu, e vocês jogaram tudo fora, e por isso precisamos auxilia-los. E o que o seu deus ganha com isso? Ele se alimenta dos sentimentos humanos. Quais precisamente? Fé e medo. São bons sentimentos para se alimentar. Por isso precisamos ajuda-los, para manter a ordem. Que ordem, não há ordem, há muita opressão. Se você tiver fé não haverá opressão. Mas eu não tenho fé no seu deus, e muito menos medo, pois agora conheço os meus dons. Então tenha fé no meu amor? As suas últimas palavras penetraram fundo no meu coração, e eu mais uma vez me senti anestesiado para todos os problemas do mundo, e para as pessoas que viviam naquela ilusão, e pareceu tirar um peso do meu corpo, mas não de minha consciência. E imagino as noites de paz que voltarei a ter, e penso novamente: Estou sendo egoísta? E ela responde em minha mente: não meu amor, você está se desprendendo da ilusão de controle. Ela me beija, é o mais gostoso de todos, e meio aquele ártico ilusório, no meio do nada fizemos amor por tanto tempo, que perdi a noção do mesmo. E a escuto dizer: Ibrahim, agora você é só meu. E adormeço em seus quentes braços, e protegido pelos seus cabelos.