in illo tempore (Parte 2)
“Houve um grande silêncio. Depois Caim disse, agora já podes matar-me. Não posso, a palavra de deus não volta atrás”
Saramago
Por mil anos morei fora do espaço tempo, e em nenhum momento meu pensamento se voltou para os fatos ocorriam dentro daquele recorte. Amamos-nos todos os dias, construímos o nosso mundo. Ela me ajudou a reproduzir as coisas que mais amava no nosso mundo, mas com o passar das eras, notei que muitas coisas que tinha construído, estava reconstruindo novamente. E ela sempre implantando o desejo da perfeição, que por muitas vezes me fez desconstruir para reconstruir. Por ora, me senti magoado, mas ao olhar nos seus belos olhos, logo a minha magoa ia embora. Eu tinha conhecido o amor. E após as noites sobre a luz do luar, ao gosto dos vinhos, e do incessante amor, eu sempre acordava revigorado para construir, ou reconstruir. Pois ela sorrateiramente desconstruía a noite tudo o que eu tinha feito durante o dia. Ela adorava os passeios nos jardins, ao fim da tarde para ver o por do sol, e era nesse momento que eu via a imperfeição da minha prisão, que foi o que esse local se transformou. Caminhando as recomendações, um dia caminhei até perder a nossa casa de vista, e cheguei a um local inóspito, onde o gelo ainda reinava, e era vivo e intempestuoso; e nesse local eu encontrei um homem a caminhar. Tal criatura tinha aproximadamente 1,78m de altura, era magro, mas não apresentava desnutrição, e sim feridas abertas nas mãos e nos pés. Ele me cumprimentou, e perguntou: o que fez meu jovem para estar preso aqui? Preso? O perguntei assustadamente. Sim, meu jovem, você é prisioneiro. Não sou não, estou aqui por escolha minha. Se for verdade, porque você não tenta sair. E o senhor, porque está aqui. A minha história é muito complexa garoto; eu fui enviado para salvar os homens dos seus pecados, e acabei por fazer parte de um acordo. Você está aqui por causa de um acordo? Sim, e por um que não tive a chance de participar, fui apenas moeda de troca. O homem continua a sua caminhada, quando ele se afasta um pouco de mim, eu faço uma pergunta. Como eu posso sair daqui? Voando garoto, voando. Retorno para a minha casa, encontro a minha amada sentada na varanda, com a cara aborrecida, e ela logo vem me fazendo perguntas: você se afastou da casa, por quê? Estava querendo andar, pensar, e notei que tem mais lugares para nos construirmos, podemos? Não, apenas devemos modificar o que nos foi dado. E quem nos deu? Você sabe bem. E quem é o homem preso a caminhar? E o filho de deus. E porque ele está preso aqui? Foi parte da barganha de deus com os homens. Eu meu mundo dizem que um dia ele vai voltar. Sim, ou não, talvez. Mas te garanto que não será como esperam a volta dele. Eu gostaria de conhecer mais esse local, ainda tem mais pessoas aqui? Sim, mas são pessoas que você não deve ter contato. Por quê? Elas querem nos separar meu amor. Mas eu amo, e o que eles poderiam fazer para nos separar? Eles colocariam ideias em sua mente. De forma instintiva e ríspida a respondo: a única pessoa que insere ideias em minha mente e você. Ela abre bem os olhos, parecia que ia ter um acesso de fúria, mas rapidamente se contêm, e abre um largo e doce sorriso. Aproximo-me, e a abraço. Novamente estou enfeitiçado, pois os seus braços e caricias são embriagantes. Meu tempo vai passando, e eu não envelheço, sei que muitas eras passaram, e ainda mantenho a vitalidade a juventude, por mais algumas vezes nos seus descuidos, ando para cada vez mais longe, e vejo mais pessoas, mas agora todas estão com mascaras, e parecem ter sido proibidas de me responder. Perco todo o gosto pela construção. Uma noite após termos feito amor, noto que ela está diferente. E a pergunto: você me ama? Ela olha fundo nos meus olhos, e me diz: não deveria, mas eu amo. Então você sabe que estou infeliz. Sei, mas não consigo saber o por que. Construi tudo o que queria, e não posso me afastar da casa, e nem falar com as pessoas desse lugar. Ela acena com a cabeça, e me indaga: e você não me ama Ibrahim. Sim, amo muito. E é por te amar demais que quero ser como você. Noto as lagrimas caindo dos seus olhos, e posso sentir o seu coração palpitando em uma mistura de dor, e amor, pois ela sabia que eu a estava enganando. Eu fiz tudo por você, mais você ainda quer me pedir algo, que com certeza eu não deva te dar, mas pedes, já que roubaste o meu coração. Eu quero voar, e conhecer todo esse vasto mundo. Ela não teve duvidas, e me cedeu as suas asas de anjo. Ao sentir que tinha o poder de voar, eu a beijei ardentemente, e depois partir, mas ela sabia que eu não voltaria, pois agora poderia ir até onde quiser pelo menos eu achava isso.