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Nova Amsterdã

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BLOG - CONTOS

Há relatos que em os holandeses invadiram a capital do Rio Grande, tal invasão se justifica, pelo fato de o Forte dos Reis Magos, construído em 1599, ser o ponto mais avançado do Brasil, e local de referência para a navegação, e de onde se poderia interceptar qualquer reforço que vieste de Portugal ou Espanha (pois esse era o período das coroas ibéricas), para retomar a recém conquistada capitania de Pernambuco, o centro da dominação holandesa no Brasil. Outra justificativa para a invasão holandesa no Rio Grande é a abundância de gado, que garantiria o abastecimento de Pernambuco. No dia 8 de dezembro de 1633, ocorreu o desembarque da primeira tropa holandesa no solo da capitania, segundo dizem, na praia de Ponta Negra, ou na de Areia Preta, e uma segunda nas proximidades do forte. No dia 12 de dezembro do corrente ano, o forte foi tomado, passando a se chamar Castelo Keulen. Após a conquista os holandeses realizaram expedições nas terras, tomaram a cidade de Natal, e a chamaram de Nova Amsterdã.

A capital do Rio Grande ficou sobe o domínio batavo durante 21 anos (1633 – 1654). Os holandeses financiavam a Companhia das Índias Ocidentais, que tinha interesse no mercado de cana-de-açúcar, e que foram fundamentais no ataque marítimo, durante a invasão, o que rendeu a companhia a administração da capitania, para onde foi nomeado como governador, o capitão Joris Gartsman, líder da esquadra que liderou o ataque ao forte.  No inicio os batavos tiveram o auxilio dos nativos e fazendeiros da vila, que organizaram pequenos motins em suas localidades, fazendo com que a pequena população do Rio Grande, em nada se constitui uma resistência. A companhia permitiu a liberdade de culto entre os nativos, tantos os indígenas, como entre os católicos; os batavos eram protestantes. Em troca de tal premissa esperava-se a convivência pacifica. Mas não só apenas fatores econômicos motivaram a invasão holandesa no Rio Grande, existiam motivos que nem mesmo a Companhia das Índias Ocidentais sabiam, e a boa relação entre os nativos e os batavos começaram a mudar em meados de 1646, com a chegada de um misterioso homem a capitania, o Barão Van der Valen.
 
 
Cap. 1: Barcos ao horizonte (1 de novembro de 1646)
           
            Por volta das duas horas da tarde, Francisco correu em direção à igreja de Nossa Senhora da Apresentação, menino de rua que vivia aos arredores da igreja, e que era alimentado, e recebia cobertas todas as noites do padre Santiago, esse mesmo que cuidara do garoto, e o mandava tomar banho, e cuidava dos seus bichos de pé, apesar de o menino viver sempre fugindo da hora do banho. Quinho, como gostava de ser chamado o menino, ainda não tinha almoçado, e o que deixava o padre muito preocupado, pois o mesmo já era raquítico, e apresentava um grau acentuado de desnutrição, e a cidade (que mais era uma vila, tinha no máximo quarenta casas) de Nova Amsterdã, como os holandeses passaram a chamar, não dispunha de um médico, que vinha a cada dois meses da capitania de Pernambuco, quando havia necessidade de algum fidalgo local. O garoto ao ir se aproximando dos arredores da igreja, já vai gritando pelo padre Santiago; a igreja passou a ser local de culto dos calvinistas, e ao padre foi dado o direito de ficar na vila, se o mesmo deseja-se sanar as necessidades espirituais dos católicos. Santiago era um bom homem, temente a deus, e ciente de suas responsabilidades com esse povo. Padre Santiagooo! Ai está você Quinho, não acha que já passou da hora de tomar um banho e ir almoçar. Depois padre, veja isso, olhe o mar. A igreja desfrutava de uma localização privilegiada na vila, e o padre ao levantar a visão e contemplar o mar, observar uma esquadra com treze navios se aproximado do castelo Keulen, que outrora foi chamado de Forte dos Reis Magos, e como voltaria a ser chamado futuramente. O padre, que vivia nos arredores da igreja, rapidamente procura alguma coisa entre os seus pertences, e após alguns segundos de busca encontra, e não apenas o menino Quinho estava lá, mas algumas pessoas já se reuniam para saber o que era tamanha esquadra a se aproximar da vila. O padre agora estava com uma luneta, coisa muito rara na época e poucas pessoas dispunham disso, a não ser que fossem homens do mar. Rapidamente ele a abriu, colocou os olhos e apontou o instrumento para o mar. O garoto, não segurava a sua curiosidade para dar uma espiada, mas foi um homem, que estava próximo ao os dois, que aparentava ter um metro e sessenta e dois de altura, não mais, e com a barba toda por fazer, sem camisa e a carregar alguns cocos para ser vendidos, conhecido por Pedroca, que perguntou: o que vês padre? São navios da Companhia das Índias Ocidentais, respondeu o padre. Não há motivos para se preocupar. E não há mesmo, respondeu Pedroca, pois irei às proximidades do cais (que era bem humilde na época, mas parecendo um malocado de canoas), para vender os meus cocos, com tantos navios chegando, a tripulação deve ter sede. E eu irei junto com o senhor. Logo se adiantou o menino Quinho, que saiu correndo, antes que o padre pudesse falar algo.
            Apesar de ser um país de maioria protestante, os holandeses quando chegaram ao Rio Grande, não impuseram empecilhos às praticas religiosas da população, tanto os católicos, quanto os indígenas, estavam liberados para realizar os seus rituais, desde que a ocupação e convivência com os batavos fossem pacifica. E de muito isso privilégio os índios, que passaram a viver mais tranqüilos, mas não estavam livres de todos os problemas, pois com o avanço das fazendas no sertão, e a criação de gado, os espaços de caça foram desaparecendo, e os índios passaram a caçar os bois das fazendas. Mas isso não foi problema, porque logo foi sanada a situação de forma amigável. De inicio os católicos, gostaram da ocupação holandesa, mas logo deixaram de apoiar, devido à liberdade e os acordos feitos entre os batavos e os indígenas. Não havia restrições as atividades do padre, desde que o mesmo não se metesse em assuntos da capitania, coisa que era muito difícil, pois o bispo responsável pela diocese, raramente vinha, ou se comunicava com o padre. As poucas correspondências trocadas eram sobre o comportamento dos batavos. Os holandeses com os protestantes e indígenas, os portugueses com os católicos, ainda sim tinha informantes, e isso com o tempo começou a irritar os batavos, que logo trataram de enviar um governante com mão de ferro, para resolver os problemas da capitania.
            Enquanto algumas pessoas se encaminhavam para as proximidades do cais, o padre continuou a olhar os navios, e notou algo que não vira antes. Mas que navio é aquele que destoa dos demais, todo feito em madeira negra, e nem parece ser do mesmo estaleiro, é muito diferente dos demais, será o navio do Barão? Santiago ficara sabendo da chegada do Barão por intermédio do bispo, por meio de sua última correspondência. O padre sentiu calafrios ao contemplar o navio, que ele julgava ser do tal Barão Van der Valen.
            Algumas horas depois, Inácio, fazendeiro, e líder dos católicos portugueses, visitou o padre para ter noticias já se aproximava do por do sol, e Santiago o pode mostrar a esquadra que se aproximava, e o barco que destoava dos demais. Mas o que é isso perguntou o fazendeiro. Provavelmente deve ser a chegada do tal Barão que seria mandado para governar a capitania. Mas são necessários tantos barcos padre? Não sei, talvez seja por acaso, eles podem estar indo para outro local. Não sei quais são as intenções desses batavos com esse governador vindo da Europa, mas que essa política de aliança com os índios deve ser revista, eles são bárbaros desaculturados e sem religião, e andam nus, não trabalham, e comem apenas do que a natureza dar. Eles têm a sua forma de organização social Inácio, e devemos respeitar, apesar de não cultuarem o nosso deus, eles também são filhos de deus. E por isso que a capitania não é respeitada, nem o nosso padre tem poder com o povo, e fica compartilhando da idéia batava de proteger os indígenas.  Não podemos reclamar dos holandeses meu nobre fazendeiro, eles nos permitiram manter as nossas tradições, e fazem a manutenção da paz na capitania, ou vai me dizer que os seus negócios não andam bem? Meus negócios andam muito bem, mas mesmo assim tenho tido poucos prejuízos. Não há do que reclamar. Olhe para mim padre, quando esse Barão descer, eu mesmo vou conversar com ele sobre esses índios que se acham dono das terras, e se ele não der jeito, o diabo irá dar! Cuidado com os desejos Inácio, eles podem se realizar rápido. As últimas palavras do padre saíram instintivamente, e até mesmo ele se assustou com o que disse, e colocou a mão na boca como se segura-se mais palavras. O fazendeiro o olhou no momento das palavras proferidas, colocou o seu chapéu e disse: passar bem padre!
            A passos rápidos Inácio regressou a sua fazenda, nas regiões as margens do rio, onde hoje poderíamos dizer que era nas proximidades do bairro do Alecrim. E em seu caminho dialogou com si mesmo. Tenho que convencer esse Barão, que a política de boa vizinhança com os potiguares só nos trazem prejuízos, mas como farei isso. Espero que o mesmo ainda não esteja totalmente a par da situação dos termos batavos, com os índios. Tenho que ser rápido e convocar uma reunião com os fazendeiros, e depois sim ir falar com o tal Barão.
            No momento do crepúsculo, o padre ainda está parado no mesmo local a vislumbrar a esquadra que se aproxima, e sem nenhuma noção de tempo, nem sabe que há horas está sentado, paralisado, como se aquele barco exerce-se algum poder sobre o seu corpo. Quando a noite finalmente caiu, e ele não viu o regresso de Quinho e Pedroca, foi que ele se levantou e deu inicio as suas visitas noturnas. Andando em direção ao centro da vila, ele se deu conta para quem seria o casarão construído as pressas pelos batavos, parou em frente ao mesmo, ainda totalmente na escuridão, pois ainda não havia moradores. Mas não seria a última vez que o padre Santiago estaria neste local, e nem a última que ele estaria escuro.
            Já era por volta das vinte e três horas quando os barcos chegaram ao tímido cais, Pedroca e Quinho, estava desde o inicio da tarde esperando por essa ocasião, ambos partiram para próximo do atraente barco negro, que o padre dissera que supostamente pertencia ao Barão. Logo a musica soou alta e forte, em uma língua incompreensível para esses dois nativos, filhos da terra do Rio Grande. E logo com a musica, homens e mulheres com roupas coloridas em tons pastel, sem o mínimo arranjo de combinação começaram a saltar do barco, e a trabalhar incessantemente, como se tivessem passado toda a viagem dormindo. Gosta de trabalhar garoto? Perguntou um dos primeiros homens a pular do barco. Dependendo de quanto vai me pagar, posso até gostar, respondeu Quinho. Mas veja, tem um menino muito esperto aqui, mas não venha ser mais esperto do que eu menino, porque também sou daqui dessas terras. Pedroca já era um pouco mais vivido, e com um rápido esforço na memória, ele chegou à conclusão correta sobre tal homem. Ele é um cigano Quinho, murmurou para o menino, e ciganos não são confiáveis. Já iam se afastando lentamente quando o cigano falou: ei! Para onde vão? Abra os cocos rapaz, estamos com sede, pagaremos em ouro. Mas foi com receio que Pedroca abriu os cocos e serviu estes homens, seu maior medo era não ser pago pelo seu esforço. Os ciganos se deliciaram com os cocos, e logo em seguida pagaram uma moeda de ouro a Pedroca, que nunca tivera visto, ou tido tanto dinheiro. Esses homens trabalhavam rápido, e logo após o se deliciarem com os cocos, começaram a trabalhar no transporte dos pertences do Barão.
            As carroças com a mudança do Barão já estavam pronta, já eram por volta das três horas da madrugada, e mesmo sendo Nova Amsterdã uma vila pacata e de cidadão quase todos religiosos e temente a deus, os ciganos subiram a colina que dava para o centro da cidade cantando em voz alta, o que acordou muitos moradores. Durante o caminho, Pedroca perguntou a Quinho: será que o tal Barão veio, nós não vimos ele. Ele veio sim, seu Pedroca, ele veio. E como você sabe garoto? Porque ele falou comigo. Como se você não saiu do meu lado, e eu não vi você conversar com ele. E apontando para a sua cabeça, o menino olhou para o vendedor de cocos e disse: ele falou aqui, aqui ó!

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