Tempo de Escuridão 02

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BLOG - CONTOS

Livros de terror estão agora na moda, mas a narrativa familiar que Daniel está fazendo não só transforma esse gênero, mas adiciona mais um elemento: a fatalidade da vida real, com personagens e locais reais, que fazem com que o leitor, principalmente moradores locais e conhecidos das pessoas citadas, entre mais ainda na história. Onde será que isso vai acabar?
 
Fernando Afonso
Crítico e Viciado em Leitura

Capítulo 02 - Preparação

Segundo dia, 01 de junho de 2011.

Cinco da manhã.

Todos estão mortos! Não consegui dormir durante a noite, quem conseguiria?Gritos e mais gritos, pedidos de socorro, tiros. Apocalipse zumbi, que piada, podia ser uma guerra nuclear, acabava mais rápido. Agora provavelmente todos na cidade devem estar mortos, ou quase mortos, não sei como devo falar, pelo que eu percebo é que só restou eu minha mulher e minha filha. Não, não devo pensar assim! Não é possível que todos tenham morrido, vou esperar mais uns dias e procurar alguém, agora não posso sair tenho que esperar a poeira abaixar. Devo evitar o risco de alguém invadir aqui, quando tudo estiver mais calmo eu saio. Talvez amanhã.

Seis da manhã.

Até para eu isso seria uma loucura, até ontem. Gildy e Taís acordaram. Gildy está abatida, não posso recriminá-la? Nos dois estamos um trapo, mas devemos ser fortes, não podemos descansar. Taís está brincando. Como eu tenho inveja e pena dela nesse momento, se diverte sem ter noção do que acontece, apenas dois anos e terá que crescer em um mundo devastado. Não, não terá, isso deve acabar tem que acabar. Peço a Gildy para preparar o café temos que comer, mesmo estando sem fome, precisaremos de energia, teremos muito que fazer daqui por diante.

Sai de casa e fui verificar os portões. Parece que ninguém tentou entrar, ainda. Vejo que minha casa vai servir como um abrigo por muito tempo, ainda bem que ela parece uma fortaleza. O antigo dono era um alemão que aliciava menores aqui da cidade e fez a casa com muros altos, paredes grossas, um portão forte, a única casa a não ser assaltada na rua. Vai ser difícil de alguém conseguir invadir aqui, mas por prevenção coloquei no portão grande uma mesa de jantar aqui de casa, vai ficar ainda mais difícil de abri-lo. Peguei a escada e subi na caixa d’água da casa, sempre achei um ótimo lugar para observação, que irônico. Sentei-me no topo e olhei em volta, não gostei muito do que vi. Na direção da rua principal eu via fumaça, provavelmente de algum incêndio ou acidente na BR. Podia observar que muitas casas estavam inteiras e trancadas, será que muita gente sobreviveu. Na rua por trás de minha casa pude perceber umas cinco pessoas na rua andando lentamente, só podiam ser infectados, o pior de tudo é que conheço todos eles, não são próximos, mas conheço. Eventualmente vou ter que matar, será que é matar? Algum conhecido, quem dirá um amigo. Espero que eu não fraqueje na hora.

Esses pensamentos horríveis trazem as lagrimas aos olhos. Não posso ficar chorando, me lamentando, tenho que permanecer firme, aceitar, tudo mudou. Tenho que mudar também

Não posso ver de perto, aqui de cima, para ter detalhes, droga deveria ter arrumado um binóculo, esqueci disso. Bom agora já era, tinha que descer e preparar Gildy para o que estava por vir volto a subir aqui mais tarde e observar mais.

Oito horas da manhã.

Falei com Gildy para começarmos a fazer exercícios. Tenho alguns equipamentos de aeróbica em casa e, agora, a esteira elétrica da vizinha. Gildy disse que era inútil, coitada. Uma coisa que eu aprendi assistindo Zoombieland1 “Regra nº1: condicionamento físico. Quem se ferra primeiro são os gordos”. Então eu preparei uma agenda de exercícios diários. Todo dia uma hora de malhação e ainda vou voltar a treinar caratê e ensinar a ela. Temos que estar aptos para nos defender e proteger nossa filha, ninguém quer um molenga que não agüenta nada lhe dando apoio em uma hora dessas, apoio moral não salva vidas, golpes de machado sim.

Gildy continua reclamando. Falei a realidade para ela, fui duro, mas tive que ser não quero correr o risco de acontecer algo com ela ou Taís. Afinal, se eu morrer e ela ficar, sem preparo físico nenhum, não irá durar um dia sequer. Tomei uma decisão e vou até o fim, sobreviveremos e para isso todos nos estaremos prontos para as necessidades, deixar de treinar não é uma opção. Uma hora por dia, todos os dias, sem descanso. Vamos começar um regime também, além de perder o excesso de peso iremos racionar a comida. Precisamos fazer com que ela dure. A vida não vai ser fácil daqui para frente.

Nove horas da manhã.

Gildy está se exercitando, aproveitei e soltei Sansão. Gostava dele, mas de nada um salsichinha feliz e hiperativo vai me ajudar nessa situação, podia virar alimento depois, mas gastaríamos muito tempo cuidando dele até fosse necessário matá-lo, melhor agora. Abri o portão e o deixei correr, espero que ele sobreviva. Aproveitei o momento para dar uma espiada na rua, vazia. Espero que permaneça assim.

Próximo do meio dia.

Já fizemos nossos exercícios e almoçamos, sempre quis voltar a treinar, mas não dessa forma, a pressão é muito grande, a vantagem é que os exercícios ajudam a mente a esquecer o inferno que está lá fora. Mais cedo senti um cheiro estranho, acho que era carne começando a apodrecer, será que estou tendo alucinações? A televisão só mostra cenas e mais cenas dos zumbis e dos campos de refugiados. As coisas estavam piorando, parece que a Paraíba não existia mais. Tudo aconteceu muito rápido e os militares não conseguiram dar conta, agora o estado foi deixado de lado. A capital, ainda está segura, São Paulo virou uma praça de guerra, vai ser difícil sustentar a cidade, uma população muito grande. Sem notícias de Natal. Gildy voltou a chorar, deve estar lembrando da mãe, quem não está, tenho que me manter forte.

Uma hora da tarde.

Tivemos a primeira queda de energia. Durou vinte minutos, mas retornou, deve ter acontecido algo em alguma linha de transmissão, tomara que a energia se mantenha por mais algum tempo. Quando a energia terminar de vez as coisas vão ficar ruins, além do calor tem os mosquitos e o fim das informações. Ainda não publicaram nada explicando o que aconteceu, de onde veio a doença, se é uma doença. Só sabemos o de sempre. Zumbis lerdos, loucos por carne, mordidos se tornam zumbis, destruir o cérebro os mata. Bom, já é alguma coisa.

Uma hora e trinta três minutos da tarde.

Gildy foi colocar Taís para dormir e tentar cochilar junto. Realmente é mais fácil de dia. A noite é sinistra, parece que temos um medo permanente de se deparar com algo ao nosso lado, mesmo sabendo que a casa esta segura. Cara isso é horrível, deve ser assim que uma pessoa com paranóia ou síndrome do pânico se sente. Todo momento achamos que um infectado irá aparecer e nos morder, qualquer barulho, qualquer ruído, projeta uma injeção de adrenalina no corpo. Se eu tivesse me lembrado teria comprado veneno de rato, os que ficam no teto aqui de casa estão me deixando louco, toda hora eu penso que tem algo ou alguém no teto. Vou saber se apareceram outras coisas além de zumbis?

A internet se foi, acho que a empresa não conseguiu manter a transmissão, já era ruim normalmente, quanto mais agora. Fui à cozinha e peguei uns tomates e alguns maracujás, pretendo colocar as sementes para secar e ver se consigo plantar, tomate e maracujá são mais fáceis, basta enterrar e esperar.

Faz tempo que não ouço mais barulhos pela cidade, acho que tudo está se acalmando. Como será que está a cidade? Pelo silêncio, ou estão todos quietos, ou mortos. O que será de nós?

Ente duas e quatro da tarde.

Gildy não conseguiu dormir. Vou subir e da uma sondada nas redondezas, acho q vou ficar lá em cima e pensar em algum plano de ação enquanto eu observo. Preciso estar atento as redondezas.

Enquanto observava, lembrei que eu não tenho nenhuma lanterna aqui em casa, terei que ir atrás de alguma mais tarde. Queria adiar a saída aqui de casa, ficar aqui dentro é mais seguro, mas tem coisas que preciso conseguir, binóculos, lanternas, pilhas, remédios e eu poderia pensar em mais uma porção de coisas. Olhando a rua vi uns dez infectados, pelo menos eu acho que são. É vou atrás de um binóculo depois.

Cinco horas e 26 minutos.

Já estava escurecendo e eu tinha resolvido descer e entrar em casa. Quando eu cheguei ao chão pude ouvir uns latidos e alguns gritos. Ainda bem que resolvi subir novamente e ver o que estava acontecendo.

Quando chequei no alto da caixa d’água pude ver o que acontecia. Duas pessoas e um cachorro pitbull haviam sido cercados pelos zumbis que estavam na rua atrás de minha casa. Eu conhecia o casal e o cachorro. Saulo, sua namorada e a pitbull dele. Pelo que vi Saulo estava levando o boken que eu havia dado a Caetano e que havia sido dado a ele depois, se ele souber usar aquilo vai conseguir, os zumbis são lerdos, uma boa paulada no centro da cabeça e pronto.

A pitbull avançou nos zumbis e os atacou pena que esses cachorros mordem e travam a mandíbula, assim que a cadela derrubou o primeiro e começou a estraçalhá-lo, quatro zumbis caíram sobre ela e começaram a devorá-la. Morreu, mas ajudou o dono. Com a saída de cena de quatro dos dez zumbis Saulo pode passar puxando a namorada. Deu azar, quando ele começou a correr pelo espaço entre os zumbis um conseguiu segurar a namorada dele pelo braço. Saulo foi rápido conseguiu empurrar o zumbi com o boken evitando que ele mordesse Lili e com um puxão ele arrancou rasgou a lateral da camisa dela deixando-a livre antes dos outros zumbis se aproximarem, agora estava livre, tinham que correr. Será que eles estão mordidos? Vou ajudar de toda forma. Se estiverem mordidos os coloco para correr, meu amigo, mas a segurança vem primeiro desci o mais rápido que pude. Gritei para Gildy que estava saindo, peguei os dois machetes e o escudo que estavam na área de serviço. Ia sair pelo portão da frente, mantinha a esperança que a rua da frente de minha casa estava vazia.

Gildy correu para o portão implorando que eu não saísse, mas tinha que ajudar, não podia deixar eles na mão agora, estavam perto. Abri a porta e mandei ela ficar do lado de dentro esperando eu voltar, não podia perder tempo trancando o portão por fora. Sai para a rua o mais rápido possível, não queria algum zumbi pulando em cima de mim de surpresa. Quando sai pude ver a rua, as casas estavam fechadas. Somente uma aberta, a de minha vizinha, aberta e com dois zumbis na porta, pobre Zinha, será que ela está bem? Acho difícil. Na extremidade da rua por onde Saulo devia vir pude ver meu vizinho, sem um braço, acho que ele foi atacado dentro de casa, mas quando chegou à rua morreu. É agora, hora da ação, foi mais rápido do que pensava, mas é o jeito. Corri na direção dele, podia ter desviado sem problemas. Mas cada zumbi morto já é alguma coisa. Ainda tinha que cuidar dos outros dois depois.

Ele estava de costas, antes de virar em minha direção dei um golpe com o machete descendo o braço em arco na direção de sua cabeça. Descobri que o machete era muito afiado, ou eu muito forte, voto no afiado. O machete cortou a cabeça em dois e parou no meio do pescoço, o sangue jorrou e quando puxei o facão os pedaços do cérebro do crânio partido se esparramarão no chão, chutei o corpo para o lado e corri na direção da esquina quando estava virando dei de cara com Saulo que lançou um golpe contra minha cabeça com o boken. Escudo aprovado. No susto levantei o escudo e protegi meu crânio, senti o impacto com força, mas não me machuquei muito.

Quando viu que eu não estava infectado abaixou o boken e gritamos ao mesmo tempo um para o outro, “tá mordido?”. Seria engraçado em outros momentos. Com a afirmação de que estávamos bem vivos e sem mordidas voltamos para minha casa, Saulo teve que carregar sua namorada, ela tinha entrado em choque, olhos vidrados chorando, quem não ficaria? Depois soube que ela tem bastantes motivos para ficar em choque.

Entramos em minha casa, os zumbis na porta de minha vizinha estavam descendo a rua, mas não seria problema quando entrássemos, cuido deles depois. Quando entrei em casa, fui para o lado e vomitei o que tinha e não tinha para vomitar, na hora agente se segura com a adrenalina, mas depois que tudo vem é difícil de segurar. O mundo estava fodido, tinha acabado de atravessar a cabeça de meu vizinho com um facão, provavelmente minha vizinha está morta. Minha família em Natal deve estar na mesma. Que merda, está tudo fodido. Vomitei mais, me controlei e entrei. Tenho que parecer bem para Gildy, merda estou cheio de sangue e tem zumbis na rua. Como vou parecer bem?

Quase oito horas da noite.

Jantamos, arrumei um quarto pra Saulo e Lili, expliquei para ele o sistema de exercícios que deveríamos fazer, o racionamento de comida e água e a necessidade de esquecer o altruísmo e pensarmos apenas em nosso grupo fechado. Pobre Lili viu muita coisa da casa dela até aqui, esta em choque, Gildy teve que dar banho e trocar a roupa dela. Espero que ela volte logo, se não será um peso. Que inferno, já estou pensando em como me livrar das pessoas inúteis. Mas é assim tenho que ser realista, ou penso desta forma ou não conseguirei garantir a segurança de minha família.

Estou começando a perceber que eu fui uma, das poucas exceções. Percebi o que estava acontecendo e consegui me salvar. Agora me lembro do caso em 2008 do menino que matou o pai em algum lugar, acho que foi em São Paulo. Ele afirmava que ao se deparar com o ele na cozinha de noite pensou que era um zumbi e o matou. Parecia loucura naquela a época. Será que foi o primeiro caso? Provavelmente nunca irei saber.

Dez e quarenta da noite.

Gildy foi dormir com Tais, Lili está no quarto. Sentei com Saulo na cozinha, quero que ele me atualize com todas as informações. Tenho que saber como tudo aconteceu, pelo menos o que ele viu. Assim terei uma ideia do tamanho da coisa e poderei fazer um plano de ação.

Fui ao quarto e avisei a Gildy que ia conversar com Saulo na caixa d’água. De lá podíamos observar e planejar algumas coisas. Lili está com medo de ficar sozinha, coitada. Ficamos na área de serviço conversando, Lili ainda esta com medo não larga Saulo.

Onze horas em diante.

Caralho! A merda foi muito grande, Saulo me contou tudo desde a minha ligação até a chegada dele aqui em casa. Preciso de uma cerveja, acho que tenho umas aqui na geladeira ainda. Essa praga espalhou-se como pólvora acessa.

Após minha ligação Saulo resolveu pegar sua cadela e a boken e ir até a casa de Lili, ele tinha decidido averiguar o que eu contei e ver se estava tudo bem. A família dele não estava em casa, Samara a irmã mais nova estava comigo indo para Natal. Deve ter ficado por lá. Que seja, quando ele chegou na casa de Lili já eram mais de quatro horas e o caos já tinha começado. Pelo o que eu entendi os feridos no ataque do centro comercial foram levados para o hospital e lá infectaram várias pessoas. O grande problema é que o hospital fica em frente da maior escola da cidade, basta ligar os pontos e alguns minutos já tínhamos várias crianças zumbis, ou quase zumbis fugindo para casa e espalhando mais ainda. Ainda bem que Gildy não estava trabalhando, essa era a escola em ela ia ensinar.

Parece que quando chegou na casa de Lili todo o bairro já havia sido tomado e as pessoas sem entender nada iam sendo contaminadas uma a uma. Ele contou que forçou Lili e a mãe a ficarem dentro de casa e trancar tudo, mas parece que quando estava anoitecendo o pai dela chegou na casa, mordido e fugindo de alguns zumbis que estavam na rua, quando a mãe dela abriu a porta já era tarde. Os zumbis tinham caído em cima do pai dela e conseguiram puxar a mãe para fora, a partir daí ele parou de contar, mas eu suponho o que aconteceu. Então para fugir eles pularam uma janela e Saulo resolveu vir para cá, arrastando a namorada.

Ele não entrou em detalhes da vinda, mas falou que a cidade estava um caos. Zumbis pelas ruas, pessoas espedaçadas, muito sangue. Parece que a Br. Estava mais vaga, mas mesmo assim ele disse que a rua principal estava um caos, carros capotados ônibus batidos, o Supermercado Confiança2 esta aberto, cheio de zumbis, mas aberto. Tenho que ir lá depois vou bolar um plano. Realmente, Saulo foi muito cagado, ele veio por cima da mureta de contenção da parte nova da BR e conseguiu chegar à rua aqui de casa em relativa segurança.

É as coisas estão ruins, vou tentar dormir, estou com calafrios. Amanhã, teremos que pensar em algo. Acho que vou ampliar a área de ação da minha residência, dar uma olhada na casa dos vizinhos, posso encontrar algo. Tenho que ir lá na casa de Dalva, minha empregada, não posso deixar ela sem apoio. Se ainda estiver viva trago ela. Teremos alguém para cuidar de um possível roçado, poderemos plantar algo no quintal aqui de casa.


1 Zoombieland é um filme de zumbi. Muito irado por sinal, recomendo.

2 Confiança é o nome do maior supermercado da cidade, fica no centro da cidade as marrgens da BR.


Veja o capítulo anterior aqui:

Tempo de Escuridão

 

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