Escrito por Wu-Danieru Seg, 27 de Junho de 2011 15:37
BLOG - CONTOS
Continuando a saga pessoal fictícia (tomara) da pequena família em busca de sobrevivência. Aguardo comentário positivos - ou negativos - dessa jornada minha como escritor. Acompanhem abaixo o 3º capítulo.Capítulo 03 - Nas ruas
Terceiro dia, 02 de junho de 2011.
Por volta das três da manhã
A energia acabou. Eu não teria ligado para isso, afinal sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde. É claro nada é bom como devia ser. O grande problema foi que após a queda de energia a sirene da cerca elétrica da vizinha ativou. Um defeito chato que ela nunca concertou e, agora, poderia custar muito caro. Quase todo mundo que conhece algo sobre zumbis sabe que eles vão atrás de barulho. Não sei se esse seria o caso, mas não podia arriscar tudo.
Assim que a sirena começou a tocar pulei da cama. Gildy ficou assustada, expliquei para ela a situação a deixando desesperada. Se os zumbis realmente escutassem, aquela sirene atrairia todos os malditos das redondezas para as proximidades de minha casa. Seria uma questão de tempo até agente se ferrar. Tinha que ir lá fora e rápido... No escuro. Lembrei que não tinha lanterna, no máximo um celular com lanterna e outros dois smartphones, mas nada demais. O pensamento de sair na escuridão fez o medo aflorar e o meu corpo começou a tremer. Droga! Não tenho opção, tenho que ir, e rápido.
Sai do quarto, Gildy veio atrás pedindo que eu não saísse. A empurrei e gritei que eu não queria, mas tinha que ir. Taís acordou com o grito, Saulo e a namorada também. Não precisaria acordá-lo. Expliquei a situação e ele entendeu que era necessário. Gildy e Lili já estavam chorando, podia ouvir os soluços através da escuridão. Tínhamos que nos apressar, desligar a sirene antes que a rua ficasse infestada de mortos-vivos.
Eu e Saulo nos vestimos. Coloquei meu casaco de frio, uma calça jeans e meus tênis; Emprestei a Saulo uma calça, minha jaqueta jeans e um par de tênis que eu não usava. Quem sabe as roupas grossas nos darão uma proteção contra as mordidas? Com uma fita adesiva preguei o celular com lanterna na aba do boné de Saulo. Ele enxerga pior que eu. Terá mais chances de sobreviver com ela. Tirei as carcaças dos smartphones que eu tinha e colei-os no escudo com a fita, certifiquei-me de deixar as teclas emperradas para as luzes não apagarem. Ajustei o escudo, peguei um machete coloquei o jo preso a minhas costas. Saulo pegou o outro machete, um dos machadinhos e o machado grande nas costas.
Quando já íamos saindo para o quintal lembrei que as sirenes são colocadas dentro do telhado das casas, geralmente nas pontas. Precisaríamos da escada e algumas ferramentas. Isso ia ser muito problemático, merda. Joguei a caixa de ferramentas, a marreta e o formão dentro da mochila de Saulo, pegamos a escada grande e fomos para o portão e paramos. Acho que ambos imaginávamos quanto tempo fazia que a sirene tinha começado a tocar cinco, quinze minutos? Talvez. Quantos zumbis estariam na porta nos esperando?
Coloquei a escada na parede, vesti o boné de Saulo e subi para ver a rua. Foi uma visão desesperadora, não sei como eu me mijei. A lanterna não iluminava muito, mas pude ver que havia uns dez zumbis próximos a minha casa e mais alguns vinham subindo a rua. Por sorte na frente do portão só tinha um, parado no centro da rua, os outros estavam a direita de minha casa. Ótimo a casa de Zinha era para a esquerda. Mas na frente da casa de Zinha devia ter mais alguns que deviam ter vindo pela outra saída da rua. Desci engolindo seco e contei a Saulo o que tinha visto. Ele começou a rezar, acho que eu devia também. Quando ele acabou em silencio dei o boné para ele, pegamos a escada eu na frente ele atrás, olhei para ele desejei um boa sorte, destravei a porta e a deixei entre aberta. Era agora ou nunca.
Entre três e trinta às cinco da manhã.
Sabe, nunca pensei que a expressão “pular no fogo do inferno” seria tão real. Chutei o portão e saltei para a rua. Machete em punho a ponta da escada na outra mão inutilizando o escudo. Assim que abri o portão pude ver o vulto do zumbi que estava no meio da rua, em minha frente. Avancei contra ele, sem apoio para usar o machete, desferi um golpe circular da esquerda para a direita, acertando o crânio do morto na altura do maxilar. Dei um chute frontal no peito do infectado que o jogou para trás, inerte. Saulo soltou a escada, quando virei ele tinha fincado o machete na cabeça de outro, gritei para ele fechar o portão. Saulo arrancou o machete da cabeça do zumbi e se virou para fechar o portão. Um terceiro zumbi se aproximava dele, deixei a escada e fui na direção do morto que me atacou. Usei o escudo para empurrá-lo e, cravei o machete no centro da testa dele. Pude enxergar mais uns quinze vultos, através da escuridão, subindo a rua.
A sirene continuava, podia ver mais alguns na frente da casa de Zinha não sei quantos. Pegamos a escada e fomos subindo a rua, apenas trinta metros até o portão dela e ele estava aberto. Estávamos encostados no muro do lado da casa de Zinha, era mais seguro, um lado a menos para se preocupar. Demos cabo de mais dois. Já estávamos chegando a entrada da casa de Zinha quando outros quatro zumbis avançaram pelo nosso lado. Derrubamos eles no chão com a escada e os atacamos enquanto estavam caídos, era mais fácil. Saulo me deu um alerta, girei o corpo o mais rápido que pude e dei de cara com outro zumbi. Ele caiu em cima de mim, só tive tempo de levantar o escudo, mas como estava sem apoio cai de costas no chão da rua com o zumbi sobre o meu corpo tentando alcançar meu pescoço, estava tão próximo que podia sentir o cheiro do hálito podre saindo de sua boca, tinha que me livrar logo.
Saulo correu e cravou a machadinha na cabeça dele, enquanto eu tirava o corpo do morto de cima de mim ele avançou em outros dois que estavam mais a frente. Levantei-me e peguei a escada sozinho, não era tão pesada. Fomos abrindo o caminho até o portão da casa de Zinha. Saulo na frente matando os zumbis que estavam na porta e eu mantendo ele longe com a ponta da escada. Ainda bem que eles são lerdos.
Entramos na casa, pelo o que podíamos ver dentro haviam uns cinco zumbis. Do lado de fora ainda restavam uns dez e aumentando. Eles continuavam vindo pelos dois sentidos da rua tinha que conseguir espaço para fechar o portão urgente. Soltei a escada no chão e avançamos contra os cinco que estavam dentro do quintal da casa, foi fácil o chão em declive e os batentes das escadas tiravam o pouco equilíbrio dos desgraçados, após abatemos eles me virei para o portão. Os dez que estavam do lado de fora estavam entrando, eu tinha que fechar o portão agora. Falei para Saulo ir desligar a sirene, tirei o boné dele e vesti, soltei o escudo e peguei o machete de Saulo e desci em direção o portão ia limpar a entrada e fechá-lo. Saulo pegou a escada e posicionou no local que achava que vinha o barulho e já estava subindo até o telhado, em breve isso ia acabar.
Armado com dois machetes eu golpeava sem parar a carne morta dos infectados, sentia meus braços doerem, o ar estava impregnado por um cheiro de sangue, suor e carne em decomposição. Continuei lutando, mas parecia que não tinha fim, acho que eu tinha derrubado uns nove já e continuavam chegando. O portão me dava uma certa vantagem, eles tinham que se espremer para entrar, mas eu não podia parar de golpear se não podia ser mordido. Dei um passo para trás recuando e me virei rapidamente para Saulo. Ele estava em cima da casa procurando a sirene, gritei para ele se apressar. Quando virei de novo senti algo em minha perna, me afastei com medo de ser um zumbi se arrastando. Quando a lanterna iluminou vi que era Sansão, que pulou em meu braço e segurei ele. Que cachorrinho esperto conseguiu fugir dos zumbis. Olhei para o portão e vi os zumbis começando a entrar. Andei para frente e joguei Sansão no meio deles, os infectados se amontoaram sobre ele, podia ouvir os ganidos do coitado enquanto era devorado pelos zumbis. Aproveitei a trégua dos zumbis e comecei a golpear a cabeça deles com os machetes. Matei os últimos quatro que estavam no portão e consegui fechá-lo, no momento que Saulo quebrou a sirene. Passei o cadeado no portão, mas não tranquei. Os zumbis que restavam se amontoaram e batiam nele tentando forçar a entrada. Malditos gemidos, pobre Sansão, no fim pode ajudar o dono. Está amanhecendo. Como vamos voltar?
Por volta das cinco da manhã.
Conseguimos. Entramos na casa de Zinha e desativamos a sirene. Matamos uns quinze zumbis, não contei. Mas estamos bem, por enquanto. Me juntei com Saulo e entramos na casa, a dispensa estava relativamente abastecida, a casa tinha um botijão de gás lacrado e outro meio usado na cozinha, um botijão de água. Tínhamos que levar tudo isso para minha casa depois. Juntamos tudo que seria útil em um canto da casa e colocamos dentro de malas de viagem jogamos os corpos por cima do muro, pelo menos Zinha não estava entre ele. Será que ela sobreviveu? Tomamos água e colocamos tudo que precisávamos na área de lazer da residência.
Saulo olhou a rua por cima do muro e disse que haviam doze zumbis na porta. Falei com ele que podíamos dar conta deles facilmente. Entrei na casa, peguei um vidro de álcool que havia na dispensa, o acendedor do fogão e uma lata de veneno contra mosquitos que tinha na conzinha, verifiquei se a lata informa que o produto era inflamável e era. Subi no muro com a escada, apenas dois metros de altura e a cerca elétrica estava desativada. Joguei o álcool sobre os zumbis e com o veneno e o acendedor de fogão toquei fogo neles. Entrei e falei a Saulo que agora era só esperar. Ficamos lá dentro por mais uns cinco minutos quando os gemidos que vinham da rua tinham parado, olhamos de novo pelo muro e os zumbis estavam no chão. Pegamos tudo, desligamos os celulares, e jogamos dentro das malas. Eu abri o portão e fui tendo o cuidado de fincar o machete no crânio dos zumbis, tinha que ter certeza, que estavam mortos. Tomei o cuidado de deixar a casa fechada, ia voltar aqui para pegar o que ficou lá, mas dessa vez eu tenho uma ideia de como fazer. E, finalmente, voltamos para casa.
Uma hora da tarde.
Após o almoço eu e Saulo estávamos descansando. Depois de todo aquele inferno merecíamos, Gildy estava fazendo seus exercícios diários e Lili ainda estava em choque. Parecia que ela ia realmente se tornar um estorvo, coisa que precisávamos nessa situação. Falei com Saulo para tentar acordá-la daquele estado, ele ficou puto, quem não ficaria? Mas ele tem que saber que nossa segurança futura depende da capacidade dela de se defender e contribuir. Não quero nenhum inútil ao meu lado quando precisar.
Duas e quarenta da tarde.
Estava na caixa d’água observando o entorno da casa. Poucos zumbis eu podia ver doze na rua de trás, mas comparado a noite anterior, doze era um número bom. Estava pensando no que fazer agora. A casa estava segura, agora eu tinha que aumentar o território de ação e deixar rotas de fuga. Eu tinha uma ideia de como fazer isso. Abriria buracos no muro da minha casa do lado esquerdo o que me daria acesso a casa do vizinho, que estava fechada a um tempo e de lá teria acesso a casa de Zinha já teria ai mais três casa e um acesso seguro para uma fuga. Era isso que eu iria fazer, abrir um caminho para a casa de Zinha e quem sabe para as outras, basta deixar formas de impossibilitar o caminho de volta em caso de emergências. Vou falar com Saulo.
Falando no demônio, Saulo estava subindo na caixa d’água. Já ia contar minha ideia para ele quando ele me deu outra ideia. Que, por sinal, era mais urgente. Ele falou que devido à falta de energia, toda a carne que tínhamos ia apodrecer e precisaríamos de carne, concordei. Ele me sugeriu que fossemos buscar galinhas na granja em frente a minha casa e o melhor de tudo nisso, a dona da granja e conhecida na cidade por ter um quarto cheio de armas. Nunca soube se era verdade, mas um colega que morou lá um tempo, vivi falando do tal quarto. Dois coelhos com uma cajadada só, iríamos à granja, pegaríamos umas galinhas e ainda podíamos achar um quarto cheio de armas, isso sem contar que na granja havia uma policultura de uma porção de coisas. Poderíamos ir lá vez por outra pegar alguma coisa. Realmente era uma coisa boa, concordei com ele, mas tínhamos que ir agora, não quero estar lá fora quando anoitecer. Ontem a noite já bastou por muito tempo.
Três e vinte da tarde.
Já estávamos na porta, peguei um varal antigo de casa para prendermos as galinhas e trazê-las mais rápido. Eu e Saulo estávamos equipados do mesmo modo que a noite anterior, dessa vez Saulo olhou por cima do muro, havia apenas um zumbi no fim da rua. Tudo seguro, podíamos ir.
Saímos tranquilamente, o zumbi que estava no fim da rua nos viu e já vinha cambaleando em nossa direção, avancei e finquei o machete na cabeça dele, o facão não entrou tanto como das ultimas vezes, parece que eu teria que afiá-lo logo. Continuamos, saímos para a rua principal. A minha casa mora em uma rua paralela a rua principal do bairro, tínhamos que seguir por ela no sentido contrário ao da BR, passar por uma pequena ponte e então chegar na frente do portão da granja o qual ficava do lado esquerdo da rua e do lado direito a casa de Dalva. Tinha que ir lá de qualquer jeito mesmo. Quando sair da granja eu dou uma passada por lá e vejo como está a situação.
Não perdemos tempo, assim que entramos na rua principal continuamos descendo até a granja, não havia zumbis em nosso caminho. Podíamos ver alguns mais a frente, após a linha do trem que ficava uns cem metros após a granja e tínhamos os que estavam na rua paralela a minha e na frente do local que Saulo foi atacado, mas acho que podemos dar conta se eles se aproximarem, matamos um de cada vez. O problema é quando eles estão todos juntos.
Continuamos e chegamos ao portão da granja, estava aberto, o carro da dona estacionado aberto e vazio em frente a casa. Agora tínhamos que ter cuidado, a dona podia estar dentro, viva e bem armada. Apesar de seus oitenta anos dizem que ela atirava muito bem. Entramos, vimos o cachorro da casa morto sendo comido pelo caseiro, falei para Saulo ir pegar as galinhas no galinheiro enquanto eu tentava a sorte dentro da casa, já tinha entrado algumas vezes. Nos separamos.
Chequei a soleira da porta e pude ver a dona da casa em pé na varanda da casa. É, oitenta anos, enterrou três maridos e lá estava ela, transformada em um zumbi, viveu tanto para isso. Uma das mãos não estava lá, acho que foi arrancada por uma mordida e quando chegou aqui não teve jeito. A velha zumbi olhou para mim e começou a andar em minha direção, fiz logo meu serviço, acertei a cabeça dela e o corpo caiu inerte no chão, me direcionei para a porta. Agora, eu tinha que ter cuidado, não sabia o que ia encontrar dentro da casa, podia ter mais alguém lá dentro.
Chutei a porta para abri-la. Foi fácil, a casa era velha e não via uma reforma a muito tempo. Pude entrar na sala retangular, dei uma olhada em volta e não vi ninguém. Como eu pensava. A casa estava vazia, ninguém morava ali a um bom tempo. A dona ia à granja todo dia, mas não ficava nela. Agora era só procurar o quarto das armas pegar tudo e passar lá em Dalva e voltar para casa.
Realizei uma busca meticulosa pela casa, olhando cada quarto em busca de coisas uteis, mas não achei nada. Quando entrei na dispensa ela estava vazia, dentro dela havia uma outra porta trancada com um cadeado, deduzi que o tal quarto de armas devia ser aquele. Arrombei a porta com um martelo velho que havia dentro da dispensa e então entrei no quarto. Não era mentira, a velha realmente guardava armas. Achei no quarto dois revolveres calibre 38 e duas caixas de balas, duas escopetas com uma caixa de balas e uma espingarda calibre 12 com dez balas. Não é de se admirar que ninguém tivesse coragem de invadir a granja. Peguei tudo e fui saindo encontrei Saulo na porta, ele já havia pego três galinhas e um galo. Era tudo que tinha, tínhamos que ir na casa de Dalva agora, coloquei as armas na mochila de Saulo, as que não cabiam levei elas nas costas e saímos da casa. Avisei a Saulo que depois íamos ficar voltando na granja pegar algo das plantações.
Saímos para a rua, alguns poucos zumbis vinham em nossa direção, mas nada demais, estavam um longe dos outros. O problema é quando estão todos juntos. Os deixamos de lado e atravessamos a rua na direção da casa de Dalva. Dalva mora em frente à granja, a casa fica em um declive, sendo mais baixa que a rua e ao lado da linha de trem. Desci o declive e fui até o portão da casa, era gradeado, se alguém tivesse virado zumbi lá dentro não teria como sair e me atacar. Chamei por Dalva, gritei umas duas vezes e ninguém respondeu, Saulo estava na rua vigiando a retaguarda e cuidando de algum zumbi que chegasse perto demais pela rua. Esperei um pouco e ouvi um chamado baixo na casa da filha de Dalva que fica vizinha a dela.
Ao olhar para a casa vi uma fresta da janela aberta, perguntei quem era. E a janela se abriu, era dois dos netos de Dalva, Lucas e Wesley. Eles pareciam muito assustados, quem não estaria? Perguntei se tinha alguém em casa e eles me responderam que não. Pelo que entendi vários evangélicos da cidade correram para as igrejas em busca de proteção divina e lá aconteceu o de sempre. Na igreja que Dalva frequenta não foi diferente, todos lá rezando e ai um infectado entra morde um dois e começou tudo. Wesley e Lucas só conseguiram fugir porque o pai abriu caminho, entre a confusão e conseguiu salvar eles dois, mas ficou na igreja preso com os outros. Então eles se esconderam em casa esperando o retorno da família. Acho que morreram todos. Mandei eles saírem de casa colocarem na mochila todos os alimentos não perecíveis e pegar as ferramentas de roçado do avô deles, íamos precisar delas.
Eles estavam com medo de sair, mas Wesley já tinha 15 anos e era muito inteligente, sabia que sozinhos não iam durar nada, Lucas apesar dos nove anos sabia que minha casa era mais segura. Eles venceram o medo e saíram da casa, pegaram tudo que podiam e colocaram dentro do carrinho de mão do avô. Agora tínhamos uma pá, duas enxadas, mais dois facões do tipo machete, algumas facas e ferramentas e, ainda, um bode, uma cabra e um filhote. Poderíamos construir um local para colocar os animais e teríamos uma fonte de carne garantida.
Subimos o declive. Saulo tinha matado mais uns cinco zumbis. Como eu disse sozinhos eles não metem medo, são muito lerdos. Podíamos ver na rua quatro na direção de minha casa e seis na direção da linha do trem. Jogamos tudo que tínhamos no carrinho de mão, amarramos os animais e seguimos retornando. Wesley levava o carro enquanto eu e Saulo íamos cada um de um lado fazendo a escolta. Avançamos um pouco e demos cabo dos quatro que estavam perto da entrada de minha rua, estava tudo perfeito. É claro sempre que tudo parece perfeito acontece alguma coisa que mostra como você não deveria se sentir confortável em nenhum momento. Bem parecido com aquela velha frase “não poderia ficar pior”.
Quando estávamos virando a esquina de minha casa ouvimos um grito, atrás de nós. Não era um grito muito alto, vinha de longe, mas ouvimos bem. Socorro! Quando nos viramos vimos que na linha do trem uma menina, loira correndo tentado desviar dos zumbis e gritando. Provavelmente ela nos tinha visto e chamou por ajuda, o que logicamente atraiu os zumbis que estavam na linha, vindo em nossa direção para cima dela e mais alguns que vinham atrás dela. É se fudeu, não vou voltar e ajudar alguém assim cansei de matar zumbis por hoje. Wesley perguntou se não íamos ajuda – lá, eu disse que não. Não ia me arriscar matando zumbis por alguém que eu não conhecia. Devíamos proteger as pessoas de nosso grupo e somente elas.
E foi nessa hora que mordi minha língua, podia ter ficado calado e continuado, e pronto. Mas aquela menina chamou meu nome, pude ouvir o grito baixo, mas claro, Daniel Socorro. É ela me conhecia e na mesma hora Wesley virou para mim e disse, “então?”. Virei-me e chamei Saulo, ia salvar aquela pessoas, não podia reconhecer pela distancia, pequena e loira, podia dar alguns palpites, mas resolvi para de pensar e agir rápido. Joguei a chave da casa para Wesley, o mandeiele retornar e esperar no portão, deixei o escudo, peguei outro machete e corri na direção da pessoa. Saulo me acompanhou.
Descemos a rua correndo na direção da pessoa, ela estava cercada sem ter como passar, mas os zumbis ainda não estavam tão próximos ela devia ter chance ainda. Falei para Saulo gritar, poderíamos chamar a atenção de alguns zumbis e aumentar as chances dela. Deu certo, os zumbis que estavam sobre a linha do trem se viraram quando ouviram nossos gritos e a menina aproveitou a chance para correr por entre eles. Já estávamos a uns três metros de distancia quando ela correu por entre eles dois, a reconheci. A menina de São Paulo, que estuda no IFRN1, nem sei o nome dela, mas ela sabe o meu. Agora já estou aqui, já era vamos lá. Quando passou entre os zumbis ela esbarrou em um deles e tropeçou caindo de cara no chão, se eu não tivesse chegado ela teria morrido nesse momento, por sorte eu ainda consigo correr rápido, Saulo vinha a uns dez metros atrás.
Os dois zumbis avançaram sobre ela, sem pensar muito eu aproveitei a velocidade que vinha e chutei um no peito derrubando-o para trás e, mesmo tempo golpeei o outro com um golpe de cima para baixo no flanco direito do segundo. Ainda não sou bom nisso. O da esquerda caiu com o chute direto, mas o da direita eu não acertei direito e acabei cravando o machete no ombro dele inutilizando um braço, pelo menos ele não ia me agarrar. O zumbi virou em minha direção e se jogou sobre mim, recuei para ter mais espaço e acertar ele de novo com o outro machete, errei de novo, atacar recuando nunca foi meu forte nos treinos de caratê, dessa vez acertei o pescoço, mas não era suficiente e o outro zumbi estava se levantando. Tinha que dar cabo desse logo. Avancei, nisso eu sou bom, girei o corpo em um ângulo de 180 graus e atingi o zumbi no peito com um chute lateral derrubando-o no chão, avancei sobre ele e arranquei os dois machetes de seu corpo, virei para o que se levantava e apliquei um golpe descendo em sua cabeça fincando o machete bem no meio da testa olhei par ao que estava no chão e finquei o outro machete na cabeça dela.
Olhei para frente e vi que os outros zumbis já estavam perto, perto demais. Recuei rápido e deixei os machetes no chão, peguei a menina e a levantei. Saulo já estava ao nosso lado, ele me ajudou a puxa a menina para trás. Tínhamos que pegar os machetes, eu e Saulo nos preparamos, deixamos a menina no meio da rua a uns três metros de distancia de nos e pedimos que esperasse, íamos levá-la para um lugar seguro. Ela não respondeu, estava em choque. Peguei o jo em minhas costas e Saulo com o machete e a machadinha e avançamos sobre os zumbis que sobraram.
Apesar de não ser cortante o jo é feito de madeira de lei maciça então da para esmagar um crânio relativamente fácil. Investi contra o primeiro com um golpe descendo no meio do crânio, pude ouvir o osso rachando, Saulo avançou pelo lado esquerdo tentando separar os zumbis. Atacou o primeiro com o machete, atingindo-o em cheio no rosto e fincou o machete na lateral da cabeça de outro. Estava mais fácil, apesar do cansaço depois de matar tantos, já estava ficando fácil destruir os crânios desses monstros, quem pode nos culpar, ou fazemos isso ou morrermos. Ruim será quando estivermos nos divertindo com isso.
Depois de alguns minutos já tínhamos dado conta dos dez zumbis. Nos viramos e voltamos. A menina estava sentada no chão chorando, olhei para ela e a chamei de São Paulo, tenho que pergunta o nome dela logo. A levantamos e tomamos o rumo para casa, chega de matança por hoje. Vamos descansar comer, ligar meu ipod, ouvir umas dez músicas legais e dormir, estou cansado de ver crânios abertos.
Por enquanto estamos todos bens, fico pensando no que acontecerá nos próximos dias. Logo nós teremos que sair pela cidade em busca de suprimentos, remédios. Imagino como está a situação na parte do centro. O caos, acho que é isso que vamos encontrar o caos. Lembro de meus antigos sonhos de adolescentes em que eu adorava o caos, se eu soubesse que ele viria dessa forma deixaria de ser idiota e teria vivido a vida um pouco melhor. Adorava o caos e agora estou dentro dele e penso a cada minuto, não, a cada segundo, quando o caos irá terminar. Como ele irá terminar. Espero que seja bem. A vida virou uma merda.
Seis horas da noite.
Anoiteceu, estamos sem energia, mas estamos equipados. Mais três pessoas para a casa, a cada dia estamos aumentando em número. Vai ficar difícil de racionar a comida. Teremos que fazer todos se adequarem ao regime de treinos, racionar tudo, tenho que delegar funções para cada um na casa. Assim garantimos que ninguém enlouqueça. Vou falar com Saulo e começar a abrir as passagens para os vizinhos hoje, saquearemos as dispensas deles, teremos mais espaço, mais comida. Pelo menos agora possuímos armas, não deve ser tão difícil atirar, pelo menos espero que não.
Eu e Saulo pegamos um tronco velho na rua e o partimos para fazer algumas tochas improvisadas, agora a parte externa da casa tem uma iluminação fraca. Acho que não irá atrair zumbis, espero. Estou um caco, a madrugada lutando com zumbis a tarde indo em busca de armas e agora ter que conversar com dois garotos e uma garota sobre a possível morte aterradora de seus parentes? Não é comigo, deixa Gildy cuidar disso. Vou me sentar aqui e traçar um planejamento para a casa e o melhor que faço. Tenho que ver prioridades, funções, horários de exercícios. Merda, agora precisamos de mais bicicletas e equipamentos. Bem meu vizinho mantinha uma oficina de bicicletas, já terei peças de reposição.
Estou muito cansado mesmo. Minha vista está embaçada, mal consigo escrever. Vou dormir. Quem sabe hoje a noite será tranquila, depois de um dia como esses eu mereço conseguir dormir. Esse negocio de sobreviver a todo custo esta ficando um saco.
1 IFRN é o Instituto Federal do Rio Grande do Norte.
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