Escrito por Wu-Danieru Qui, 02 de Junho de 2011 00:00
BLOG - CONTOS
Muitas vezes nós pensamos como seria a vida se as coisas não fossem exatamente como são. Muitas vezes desejamos o que vemos em outros cantos, como, por exemplo, na televisão, nos filmes, na ficção. Muitas vezes também NÃO desejamos para nós aquilo que vemos. Assim sendo, o que seria se acontecesse conosco justamente aquilo que não gostaríamos que acontecesse? O que faríamos se víssemos com nossos olhos aquilo com o qual temos pesadelos? O que faríamos se o mundo em que conhecemos estivesse prestes a desmoronar? Seria algo mais ou menos assim...
Capítulo 01 - Apocalipse
Primeiro dia, 31 de maio de 2011.
Sabe, as vezes a nossa vida é sacudida de formas abruptas. Vocês devem saber como é, de repente acontece algo que nos pega pelas pernas e nos joga no chão derrubando tudo que pensamos estar solido e firme. Eu imagino como isso acontece no mundo, tudo tranqüilo e de repente, morte de Ozama, ou algo muito surpreendente e rápido que deixa todos desarmados e espantados. Hoje foi um desses dias. A não se que eu tenha ficado louco, pelo menos eu espero que eu tenha.
Meio dia.
Lá vou para mais um dia na faculdade, pegar aquele bom e velho buzão dos estudantes; uma hora de viagem de Goianinha1 para Natal2 e assistir aula no mestrado, uma maravilha. Ainda bem que minha esposa foi para Natal mais cedo de taxi3 para poder entregar a papelada do concurso do estado, aproveito e peço para ela esperar minha aula acabar e voltar com ela. Caroninha básica, ônibus só na ida. É o dia vai ser bom. Pelo menos eu achava que seria.
É estranho como as coisas acontecem sem nenhuma preparação, tudo muda tão rápido. Lá estávamos nós indo para Natal, tínhamos acabado de passar pela rodoviária de São José4 quando nos deparamos com aquele ônibus tombado pegando fogo. Seria uma visão até normal para eu que moro em uma cidade cortada por uma rodovia federal, todo dia vemos acidentes absurdos. Mas o ônibus tombado não era uma grande coisa, mas, sim, as vítimas. Assim que nosso transporte passou ao lado do acidente, lentamente para todos poderem observá-lo, vimos duas pessoas saindo do ônibus e isso me chocou, o estado em que elas se encontravam tornava impossível que elas estivessem andando.
Não sou um médico, mas sei que aquelas pessoas não estavam bem, elas não podiam estar bem. Pela porta frontal saiu um cara de uns 1,80 de altura com o corpo dilacerado. Todo o seu flanco esquerdo havia sido arrancado deixando a mostra seus órgãos internos, o sangue escorrendo, com o intestino pendurado e mesmo assim ele estava andando trôpego sem soltar um único grito de dor; já a outra pessoa era um adolescente com em torno de seus 15 anos, mas ele estava cortado da altura do peito para baixo, podíamos ver sua coluna solta e os pulmões sendo arrastados pelo chão enquanto ele se movia. Aquilo foi horrendo, todos que pararão para olhar ficaram nauseados por aquele cenário, quem não ficaria?
E ai as pessoas no ônibus ficaram comentando, se perguntavam se aquelas pessoas iam morrer como eram resistentes e minha cabeça vagava em uma reportagem que tinha visto há umas semanas atrás, o departamento de controle de doenças americano tinha posto na internet um informativo de como proceder durante um apocalipse zumbi. Será que era possível? Aquelas pessoas não podiam estar vivas, muito menos se movendo. E agora? Minha esposa está em Natal, minha filha está em casa, o que eu faço? Se realmente for isso eu tenho que retornar para casa e me preparar, acho que Gildy chegará bem, ela está de taxi, se não fizer nenhuma parada voltará em segurança. Estava decidido, tinha que voltar para casa e preparar as coisas.
Meio dia e vinte minutos.
Sério, eu queria estar louco! Inventei uma desculpa e desci do ônibus, sabia que essa minha hipótese de invasão de zumbis era loucura, mas o medo de ser verdade fez com que eu saísse do ônibus e tomasse o caminho de volta para Goianinha. Pelo menos eu achava que era loucura. Quando desci do ônibus e atravessei a BR-1015 para a outra margem consegui subir em um taxi bem rápido e quando já estava retornando para Goianinha tive que passar mais uma vez pelo acidente, só que a situação estava bem diferente, mais algumas vítimas tinham saído do ônibus e agora uma pequena multidão tentava segurar um passageiro que se debatia e tentava atacar as pessoas que tentavam ajudá-lo, quando estávamos passando pude ver um passageiro morder o braço de um cara que tentava ajudá-lo. Nesse momento eu percebi o tamanho da merda e resolvi agir rápido. Falei ao motorista que fecharia o carro até Goianinha e dava um dinheiro extra se ele chegasse mais rápido na cidade. Tinha que me preparar o quanto antes.
No caminho para Goianinha liguei para minha mulher e contei para ela o que tinha acontecido. Lógico que ela achou que eu estava louco, que tinha imaginado e tudo o mais. Então eu a lembrei da reportagem sobre o kit de prevenção a zumbis, deixando a em silêncio. Informei que estava indo para casa tomar umas medidas para garantir nossa proteção e falei para ela pegar o taxi e vir o mais rápido possível para casa, mas antes de sair de Natal ela devia usar o cartão de crédito e comprar duas bicicletas com cadeira para criança e equipamento de ciclista na Rapanui6, parcelando o máximo possível, cartão de crédito a riqueza dos pobres. É claro que ela odiou isso, mas era necessário, precisaríamos de um meio para locomoção que não dependesse de combustível e um jeito de levar nossa filha na bicicleta.
Dez para uma da tarde.
Quando consegui convencer minha esposa eu já estava entrando em Goianinha, pedi ao taxista que me deixasse na loja de construção de um amigo da família em que eu tinha conta, precisava de cada centavo e tinha que ser rápido. Desci do carro e fui falar com o dono da loja, inventei uma desculpa para comprar fiado, disse que meu pai tinha arrumado uma granja e precisava de material para a limpeza e ele tinha me mandado comprar lá, na conta. Nessas horas que contatos ajudam, provavelmente nunca irei pagar isso, e fui às compras. Tenho que ser sincero, apesar de toda a tensão do momento, achei essa parte legal. Meu eu sou um nerd e todo nerd se imagina nesse momento. Bem eu comprei dois facões do tipo machete, dois facões do tipo rabo de galo, 20m de corda, uma maleta com furadeira a bateria e 200 peças, um serrote, uma serra, uma caixa de pregos e parafusos, uma caixa de porcas, um rolo de cabo de aço para cercas, dois formões, duas marretas com cabo de 30cm e dois machados um com cabo de 60cm e outro com cabo de 30cm.
Durante as compras chamei um taxista conhecido e assim que terminei e assinei a nota de debito, sai direto para o Banco do Brasil. No caminho o taxista contou que um louco tinha atacado algumas pessoas no centro comercial, o cara tinha mordido algumas pessoas e se instaurou uma confusão que acabou quando o louco mordeu um policial que tentava acabar a briga e ele atirou na cabeça do agressor que morreu. Estava começando, logo logo tudo iria desabar eu tinha que ser rápido, espero que Gildy volte logo de Natal. Chegando ao banco fui para o atendimento e consegui aumentar meu limite de cheque especial para 500 reais, afirmei que precisava do dinheiro para realizar uma viagem urgente, o atendente aceitou, deve pensar que vou ter que pagar isso um dia, coitado. Sai do banco após retirar todo o dinheiro do cheque especial. Peguei o taxi e fui para o Supermercado Confiança, ao passar em frente ao centro comercial puder ver várias pessoas na cena do crime enquanto o taxista falava de como o mundo tava louco, algumas pessoas estavam feridas no hospital e eu pensava “você não viu nada”.
No supermercado fiz uma super feira de produtos de limpeza, fraldas, alimentos não perecíveis, enlatados, instantâneos e água; uma feira enorme com todo o dinheiro que havia retirado no banco. Rumei para casa no taxi, ao chegar lá descarreguei tudo e dispensei o taxista, avisei para ele ter cuidado, a cidade estava muito perigosa, coitado, foi embora achando que eu devia estar falando de perigos comuns.
A empregada de minha casa não entendeu nada. Imagine o patrão chegando com uma feira enorme além de vários objetos de trabalho no roçado, do nada. De novo botei a culpa em meu pai, falei para ela ir guardando a feira e fiz um pedido para o disk gás7 de cinco botijões de gás e seis galões d’água, eles estranharam, mas eu contornei afirmando que era para umas propriedades na praia e em Natal que íamos abastecer e, de novo, eles engoliram. Se o mundo não acabar eu pago isso tudo, prefiro me prevenir.
Duas e meia da tarde.
Todos os suprimentos estão aqui, minha esposa me ligou e falou que está na Rapanui, comprando tudo, ainda bem que ela me escutou. Fui ao posto e comprei com o final de meu dinheiro 10 litros de gasolina para emergências; peguei a esteira da vizinha emprestada, vou precisar de uma enquanto tivermos energia; carreguei meu ipod com todas as minhas músicas e vídeos de artes marciais que possuo. Já liguei para Saulo e Caetano contando para eles, lógico que falaram que eu era doido, mas eu os avisei e disse que se precisarem eu estou aqui, sei que eles vão se tocar são nerds também. Fui para o quintal e comecei a trabalhar na criação de alguns equipamentos, precisava de proteção. Peguei uma tampa de uma panela industrial velha de minha mãe e utilizando alguns pedaços de madeira de uma janela velha que tinha na rua, um cinto, e os parafusos, fiz um escudo para me proteger melhor. Aprendi muita coisa nas manifestações do MPL8. Não é um escudo de tropa de choque, mas é alguma coisa, zumbi não morde através de metal, pelo menos eu acho. Limpei minha espingarda calibre 26 e procurei as suas 10 balas, peguei meu boken9 e meu Jo10, amarrei as bainhas dos facões de forma a poderem ficar presas em minhas costas. Equipamentos prontos.
Quatro horas da tarde.
Dispensei a empregada, acho que ela pensou que eu fiquei meio doido. Falei para ela que se precisasse de algo podia vir aqui em casa. Assim que ela saiu levei o sofá e as duas poltronas de madeira aqui de casa para o portão da garagem, preciso fazer uma barricada aqui, não quero pessoas indesejadas ou zumbis forçando a entrado e o portão pequeno é mais fácil de controlar. Amarrei o sofá no portão com algumas cordas velhas de casa e os cabos de aço que comprei na loja de construção. Tudo estava pronto, agora era rezar para minha esposa chegar em segurança, tentei ligar mas os telefones estão congestionados. Acho que começou.
Cinco horas da tarde.
Gildy chegou há algum tempo, ela está abalada. Parece que ela viu umas pessoas sendo atacadas na saída de Natal, em São José e aqui em Goianinha. Explico a ela que estamos preparados, temos comida e água para no mínimo seis meses poderemos nos virar, racionamos tudo e depois tentamos formar um grupo de resistência, mas nos somos prioridade. Trancamos a casa toda e ficamos esperando o jornal, não a como negar o que esta acontecendo, o que será que vão dizer na televisão? Mas estamos prontos para o que der e vier.
Após as sete da noite.
A programação da televisão foi cancela, a presidente Dilma apareceu na televisão e fez um pronunciamento. Que bosta, em uma hora de falatório ela, basicamente, falou tudo que eu pensava que ela diria. Afirmou que não sabe de onde veio essa infecção misteriosa que traz os mortos de volta; chamando os zumbis de “infectados”, disse que não existia uma cura conhecida e que todos que fossem mordidos deviam ser afastados e isolados. Declarou lei marcial, congelou preços e garantiu que o exército estaria montando campos de abrigados nas capitais e faria a proteção das usinas de distribuição de água e energia de forma a manter o abastecimento pelo máximo de tempo possível, a telefonia fixa e móvel tinha sido cortada devido o congestionamento e provavelmente não voltaria por um bom tempo.
Após o pronunciamento eu e Gildy ficamos chocados. Realmente eu pensei rápido e fiz o que podia, mas e as pessoas que não? Quantas pessoas morreram. Podíamos ouvir o caos que se instalara na cidade, já tínhamos ouvido batidas de carro, tiros, gritos. Fui para fora e garanti que estava tudo bem trancado. Não queria nenhum zumbi entrando em minha casa, muito menos desconhecidos dispostos a tudo para sobreviver. Com as luzes apagadas abraçados no quarto dormimos e esperamos acordar no outro dia como se tudo fosse um pesadelo. Pena que era apenas o começo do pesadelo de uma vida inteira.
1 Goianinha é uma cidade do estado do RN. A cidade se localiza a em torno de 50Km de Natal e uns 25Km da praia de Pipa.
2 Capital do estado do RN.
3 O táxi intermunicipal não paga tarifa por bandeira. Geralmente o motorista fecha a corrida por um valor combinado, como um aluguel. Esse tipo de transporte é muito comum em áreas do interior.
4 São José do Mipibu é outra cidade do estado do RN. Localiza-se entre Goianinha e Natal, inclusive, hoje em dia, ela faz parte da chamada Grande Natal.
5 A BR-101 é a Rodovia Federal que corta boa parte do país, inclusive o RN e atualmente está passando por obras de duplicação.
6 A Rapanui é uma loja que vende peças de ciclismo de alto desempenho. Muito famosa e fica localizada próximo da saída de Natal as margens da BR, vizinho do Natal Shopping.
7 Quase todos os estabelecimentos da cidade vendem fiado, desde que você seja conhecido, o que é meu caso.
8 O MPL é o conhecido Movimento Passe Livre, o qual eu fui um dos co-fundadores da sede de Natal no ano de 2005-2006.
9 Boken é uma espada de madeira, própria para treinos. A minha é feita de ipê.
10 Jo é o bastão curto, também feito de madeira.