Tempo de Escuridão 05

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BLOG - CONTOS

Até agora...

O mundo entrou em colapso. Alguma coisa aconteceu e agora os mortos voltam a vida e se alimentam da carne dos outros seres vivos. A energia foi cortada, os telefones caíram, a civilização está isolada sem saber como combater a praga que se espalha a uma velocidade absurda. Peste Negra, Gripe Espanhola, Gripe suína todas são brincadeiras comparadas a essa praga, uma mordida já basta para infectar e gerar um novo zumbi.

Em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte uma família tenta sobreviver ao caos e no processo se unem a outros sobreviventes para tentar sobreviver durante o apocalipse mundial. Pequenos problemas se tornam grandes problemas, buscar suprimentos, expandir território, fazer postos de vigília. Pequenas coisas que agora são problemas muito grandes e vitais para a sobrevivência em um mundo brutal e sanguinário.

A cada dia o número de zumbis aumenta e a necessidade de se aventurar fora dos muros da casa também, o que acontecerá a cada novo passeio macabro? Pessoas e perigos a serem encontrados, uma sociedade sem leis e regras a única premissa é sobreviver custe o que custar.

 
 

Capitulo 05 – saqueando

Quinto dia – 04 de junho de 2011.

Sete horas da manhã.

Acordei cedo hoje, não consegui dormir pensando no tiroteio da noite anterior. Depois dos treinos matinais e do café da manhã, decidi realizar uma reunião com todos. Tínhamos que nos estruturar e verificar nossos suprimentos. Gás e água mineral não faltariam por um tempo, mas comida poderia se tornar um problema e ainda tínhamos que conseguir ração para os animais que pegamos, não podemos gastar nossa comida com eles. Tínhamos que sair em busca de mais suprimentos e o melhor lugar para isso seria saquear algum supermercado ou uma mercearia. Falei para Gildy e Lili fazerem um inventário detalhado do que tínhamos de alimentos e quanto precisaríamos para nos manter; coloquei Lucas para cuidar dos animais; falei para Wesley ir vigiar da varanda de meu vizinho e Alessandra ir vigiar em cima da caixa d’água. Sentei com Saulo para planejar onde iríamos conseguir mantimentos.

Ir ao Confiança seria, no mínimo, problemático, ainda mais depois do tiroteio da noite anterior. Contudo, a loja de ração para animais ficava na esquina da BR com a Rua da Parada1, na outra esquina ficava uma academia e voltando uns 20 metros havia um mercadinho. É, subir a Rua da Parada e pegar o que puder no mercadinho, na loja de rações e ainda pegar equipamentos para treinar na academia; era a melhor opção no momento. É claro que teríamos que lidar com os possíveis zumbis dentro da igreja que fica próximo do mercadinho, que até onde suspeitávamos, devia estar cheia de zumbis pelo menos se tivermos a sorte do portão dela estiver fechado, teremos uma boa chance. Nesses dias tudo tem que ser pelo lado mais difícil... Era o jeito teríamos que ir até lá e voltar era nossa chance de facilmente pegar comida para uns três meses e ração suficiente para muito mais tempo.

Nove horas e quarenta minutos

Estava decidido, pegamos os equipamentos para lutar, além das armas cada um ia levar um revolver, pegamos uma mochila para cada um e fomos para a casa de Zinha. Despedimos-nos do pessoal, Wesley avisou que a rua estava segura, com poucos zumbis que poderíamos evitar facilmente. Abrimos o portão e saímos.

Senti-me como em um dia de domingo, ruas vazias e silenciosas é claro com a diferença de alguns corpos estirados pelo chão e outros andando pela rua, fora isso tudo normal. Cara! Estou começando a ter problemas...

Pedalamos sempre cuidando para manter o ritmo, tínhamos que manter uma vantagem dos zumbis e acabar rápido com o trabalho. Quando estávamos chegando a uns 100 metros subindo na direção da BR, podemos ver o nosso principal erro bem a nossa frente, uma igreja! Droga, como eu fui esquecer aquela maldita igreja? Provavelmente estaria lotada de zumbi, já que todo mundo tinha correndo para elas quando o apocalipse começou achando que Deus os salvaria, típico clichê.

Por nossa sorte o portão da igreja estava fechado, passamos pela frente e vimos talvez uns 30 zumbis tentando atravessar as grades. De qualquer forma tínhamos que ser rápidos, aqueles portões não iriam aguentar por muito tempo.

Dez horas em ponto

Passamos a igreja e chegamos ao mercadinho. Ainda bem que estava aberto e somente um zumbi lá dentro. Saulo correu e deu conta dele enquanto eu fui para a BR pegar a ração e dar uma olhada.

Saí do mercadinho e pedalei para a BR alguns metros à frente. Já podia ver vários carros virados e pessoas caídas, mas quando cheguei à esquina vi o pior. A cidade na área da BR parecia ter passado por uma guerra, a rua estava destruída, buracos e carros em chamas por toda a parte. No sentido de Natal pude ver um ônibus tombado na BR com um corpo vestido em uniforme militar pendurado na janela. Provavelmente ele tinha alguma ligação com os tiros de ontem, se alguém tivesse sobrevivido não estaria longe e deviam ter armas pesadas.

Pensando bem haviam muitos corpos no chão e do outro lado da mureta havia uma quantidade absurda de zumbis no mínimo cem devia ter havido um grande tiroteio o que atraiu muito zumbis. Tinha que sair de lá logo e voltar para casa eu não teria como arriscar entrando na academia para pegar pesos e se alguém daquele ônibus tivesse sobrevivido poderiam ser muito perigosos, não podia deixar estranhos chegarem até minha casa.

Ainda bem que eu tenho ideia de onde os possíveis sobreviventes possam estar! Se tiver alguém ele deve ter corrido para o primeiro andar do filho de seu Lúcio que fica logo em frente do local da queda do ônibus, ou ainda pode ter algum sobrevivente dentro do ônibus, mas isso não é da minha conta, por enquanto. Tenho coisas mais importantes para me preocupar do que ajudar desconhecidos, preciso sair daqui logo, os zumbis já estão notando a minha presença e vindo para minha direção.

Fui à loja de rações que ficava na esquina, peguei um saco de ração para os bichos e voltei, desisti da academia era arriscado demorar demais ali, além do mais o que tanta gente fazia em uma academia no fim do mundo? Tentando morrer saradão? O corredor de entrada dela estava lotado e provavelmente teria mais deles lá dentro, seria um problema do caralho se eles resolvessem sair.

Quando retornei Saulo já tinha feito as compras, nos juntamos em direção de casa e ai tudo aconteceu. Ouvimos alguns disparos de armas e devido o barulho os zumbis da academia começaram a sair e nos perceberam; então o portão pequeno da igreja caiu e os zumbis começaram a sair vindo para cima da gente e, alem de todos eles tinha os que já vinham nos seguindo e os que já tinham me visto na BR. Gritei para Saulo ir embora e seguimos pedalando o mais rápido possível para casa, ainda tínhamos espaço suficiente para desviar sem confronto, mas eles eram muitos e provavelmente viriam na direção que agente tomou. Merda nós tínhamos que fazer algo para despistá-los eu não queria uma horda de mais uma centena de zumbis forçando os portões de casa.

Continuamos seguindo na direção de casa, quando chegamos à esquina da quadra pude ver Alessandra no alto da caixa d’água fiz sinal dizendo que iríamos dar a volta por trás do quarteirão e que vinham muitos zumbis. Ficamos lá esperando os infectados estarem a uma distância que tivéssemos a certeza de que viriam a rua em que entramos. Quando eles estavam a uns 40 metros de distância, fiz sinal para Alessandra se abaixar, eu e Saulo disparamos com as armas neles e continuamos na rua por trás da minha iríamos dar a volta no quarteirão e rezar para que eles fossem atrás de nós pela rua errada, assim apenas alguns deveriam chegar a minha rua. Passamos por uns cinco infectados na rua paramos a uns cinco metros deles e atiramos. Sabe foi a primeira vez que disparei uma pistola, mas com um alvo lento a uma distância curta não foi difícil derrubamos os cinco e aceleramos. Estava torcendo para que os tiros atraíssem os zumbis na direção daquele local.

Demos a volta no quarteirão e seguimos para a casa de Zinha, entramos e trancamos o portão. Lucas já estava esperando por nós, o mandei correr e avisar Alessandra e Wesley se esconderem para evitarem serem vistos pelos zumbis tínhamos que evitar atenção em nossa casa. Eu esperava que eles entrassem na rua de trás e ao invés de fazerem a volta no quarteirão atrás de nós continuassem em linha reta em direção do centro administrativo da cidade.

De qualquer forma era necessário reforçar as entradas, os portões de minha casa agüentariam uma quantidade grande de zumbis se batendo neles, mas o de Zinha eu não tina tanta certeza. Eu e Saulo pegamos alguns moveis da casa e fizemos as barricadas necessárias para evitar visitantes indesejados, levamos as coisas para a minha casa e juntei todos na cozinha para explica a situação. Acertamos fazer as barricadas em todos os acessos e depois nos trancarmos na área principal e esperar para ver no que dava. Alessandra e Wesley bloquearam as portas do vizinho da esquina e eu e Saulo fomos dar um jeito de bloquear as portas do outro vizinho, a casa de Zinha já estava fechada. Lucas colocou comida para os bichos e os prendeu dentro da casa do vizinho da direita e Gildy Lili foram reorganizar os estoques da casa, Saulo não tinha conseguido muita coisa, mas arrumou alguns produtos enlatados e uma garrafa de Pitu, pelo menos podemos tomar uma hoje, se tudo der certo....

Uma hora e trinta e cinco minutos

Merda acontece! Lembro bem dessa frase de Forest Gump2 e ela não teria sido melhor aplicada do que hoje.

Meu plano inicial tinha dado certo, fomos até o mercado pegamos suprimentos. Mas voltamos com uma horda de zumbis atrás de nós, até que tinha ido tudo bem na hora de despistá-los, muitos seguiram atrás de nós na direção do centro administrativo, mas o problema é que a grande maioria parou na esquina e na rua de trás de minha casa e agora eles se espalharam por todo o quarteirão. Para completar algum vizinho da parte de cima de minha rua ainda estava vivo e deve ter tentado fugir de casa, mas não conseguiu. Os gritos dele atraíram mais zumbis para minha rua. Agora estamos ilhados aqui dentro, com uma centena de zumbis cercando o quarteirão, mas que merda!

Precisamos de um plano de ação para exterminá-los. Mesmo com suprimentos para um bom tempo de vida, não podemos nos dar o luxo de ficar cercado por tantos infectados, temos que matar uma boa parte deles e nos prepararmos para fugir se der algo errado. E ainda tem o pessoal daquele ônibus, se tinha sobreviventes nele, com certeza ouviram os nossos disparos e podem resolver vir atrás averiguar, não preciso de estranhos aqui. Vou fazer uma reunião. com o pessoal temos que tomar algumas medidas e traçar um plano.

Duas horas da tarde

Fizemos a reunião e tomamos algumas decisões básicas, primeiro Alessandra e Wesley iriam tentar contar o número de zumbis no quarteirão, Depois que tivéssemos uma ideia de quantos zumbis temos íamos matar os da minha rua manualmente e, por fim, tentaríamos atrair os infectados restantes para um ponto mais longe possível e matar o máximo possível de uma vez só. Ótimo plano, tirando o fato de ter que matar uma quantidade absurda de zumbis no processo.

Depois de um tempo em que eu e Saulo descansávamos, Wesley e Alessandra voltaram. Tinham contado por volta de duzentos zumbis ao redor do quarteirão, por sorte o meu plano havia funcionado e na minha rua havia uns trinta zumbis na esquina de cima, eles devem ter sido atraídos pelos gritos da pessoa que morreu ainda a pouco. Os outros estavam na rua de trás Wesley conseguiu contar eles a partir do telhado da casa de Zinha e dos postos de vigilância. Agora só tínhamos que descobrir um meio seguro de matar duzentos zumbis. Merda, já vi que amanhã vai ser um dia daqueles.

Seis horas da noite

Minha cabeça está girando. Tento pensar em um plano que de certo para eliminar os zumbis, mas nada vem a minha cabeça. Gigi fica falando que eu devia deixar pra lá e ficarmos trancados aqui, mas não podemos correr o risco de termos nossas rotas de fuga bloqueadas ou da casa ser invadida. Além do mais ainda tem esses tiros que nós ouvimos vez por outra, estou preocupado. Se aquele pessoal do ônibus estiver encurralado em um local sem suprimentos, logo irão querer explorar e se virem pra cá? Pelo o que ouvimos as armas devem ser pesadas e nós temos poucas para nos defender precisamos ficar atentos e sermos mais cuidadosos, não podemos vacilar e ser pegos por um bando de saqueadores, melhor seria se todos eles morressem e pudéssemos pegar as armas deles, o que eu estou pensando? Não deixa isso prá lá.

Sete e quarenta da noite

A iluminação é pouca, deixamos apenas uma tocha e algumas velas acessas, não queremos arriscar ser vistos pelos zumbis. Temos que verificar se eles enxergam, seria bom ter um pouco mais de luz aqui. Saulo saiu do quarto que ele fica com Lili puto, parecem que discutiram por algum motivo. Tive que mandá-los falarem baixo para não atrair mais zumbis. Não entendi o motivo dessa briga, se começar a ficar assim pode ser um problema. Lá vou eu pensando em besteira de novo. Melhor dormir tenho que relaxar, vou tomar umas lapadas de cana e ir dormir amanhã o dia vai ser longo e cansativo. Planejar, planejar e planejar.

A vida esta se tornando um inferno, a única coisa que fica em nossa mente é como vamos sobreviver e não pensamos em mais nada. Agora eu começo a entender porque as pessoas enlouquecem com o passar do tempo nesses filmes e series pós-apocalípticos. Você fica aficionado na porra da ideia de se manter vivo a qualquer custo e mais nada importa. Não pensar em mais nada a não ser isso, sobreviver, então todos nos terminamos do mesmo jeito enlouquecendo. Vou arrumar outra coisa para distrair a mente.


1 - Rua da Parada é uma das Ruas que se aproxima de ser uma Avenida em Goianinha, recebeu esse nome devido a parada de ônibus intermunicipal se encontrar na entrada da rua (existe uma explicação histórica para o nome, mas essa que eu dou parecer ser mais real). É a rua que vai dar acesso a minha rua, que é uma rua transversal dela.
2 - Todo mundo já viu Forest Gump o contador de histórias, né? Ele fala essa frase quando pisa em um pedaço de merda na estrada quando esta correndo pelo EUA.

Veja os capítulos anteriores:

Tempo de Escuridão 01, 02, 03 e 04

 

 

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