Escrito por Raphael Lima Qua, 30 de Novembro de 2011 20:56
BLOG - EXTRAS

Levam-me até hospital, mas só sou atendido às primeiras horas do outro dia, o que agravou a minha situação, perdi muito sangue, mesmo algumas enfermeiras tentando conter o sangramento de forma não muito convencional. Até que em determinado ponto perco os sentidos e desmaio, mas não um desmaio completo, mas parecia um transe parcial, pois ouvia tudo que ocorria ao meu redor.
Os médicos desenganados, e as enfermeiras duras são frias, tão acostumadas a lidar com a morte, já pré anunciam a minha. Morte, morte e morte... E nessa divagação continuo o meu transe, e vejo um homem entrar na sala, negro, baixo, tinha uma barba rala, usava uma roupa branca, e uns óculos redondos, que me pareciam muito antigo. Os médicos saem e apenas ele fica comigo na sala, e o pergunto: doutor, eu já posso ir para casa? Ele me olha com os seus olhos expressivos e me fala: ir para casa? Talvez sim, talvez não, depende da sua concepção de casa, mas confesso que eu vim aqui para te buscar, mas alguém está tentando me fazer mudar de idéia, você tem amigos muito influente garoto. Nesse momento me encho de duvidas, mas começo a voltar a sentir a realidade ao meu redor, descubro que tal ser em minha frente não é humano, mas que o mesmo tem um poder imenso, chegando a ser equiparável com o do gato, e se não for de maior poder. Mas quem é você? Pergunto a ele, que observando o movimento das estrelas na noite quente, responde sem me olhar – Eu tenho diversos nomes, dependendo da sua religiosidade, e das mitologias do mundo antigo, mas confesso que tem dois que particularmente eu me identifico mais. No Egito me chamavam de Osíris, na mitologia judaico-cristã me chamam de Uriel, e inúmeros outros, se eu for contar, passaremos uma eternidade conversando sobre os meus nomes. Nesse momento, senti o mais humano dos sentimentos, “o medo da morte”, e a própria que estava em minha frente me disse: não tenha medo, pois como te disse você tem amigos influentes, e eu não te deixarei lá como me pediram apenas te colocarei no caminho, e caberá a você encontrar a solução. E se caso você seja tão poderoso como dizem, ainda nos encontraremos, e ai poderemos fazer como no filme do Bergman, e reviver as pinturas medievais. Agora feche os olhos, e me mostre do que é capaz! Após essas palavras saiu daquele estado transe em que estava, e entro em uma espécie de coma profundo, e perco todo o contato com o mundo físico, e quando abro os olhos novamente, me vejo em um local totalmente desprovido de cor. Escuto uma voz rouca e velha, a fazer uma oração, e sinto uma mão em meu braço, e vejo uma velha, baixa, um pouco gorda, com roupas velhas, segurando um terço em sua mão cansada, que tremia devido ao estado avançado de Parkinson. Ao encontrar a velha a paisagem começou a mudar, e me vi num caminho sinuoso que só fazia descer, ela me guiava para o Vale dos Mortos, e até o momento não me disse nada, mas com o passar do caminho, noto a surpresa em seus olhos, do mesmo modo que observo a mudança da paisagem. A velha fala pela primeira vez: eu não conheço este caminho. Para onde está me levando? Respondo-a: como não conhece o caminho? Esse é o mesmo caminho que já fizeste várias vezes! Ela me diz: eu nunca fiz esse caminho! Viro-me para ela e digo: velha, esse é o mesmo caminho, a diferença está no que se acredita, e você não pode me guiar. Porque eu não acredito no seu caminho. Após as ultimas palavras me senti caindo num abismo, e acordei dentro do quarto do hospital, e a velha estava lá sentada ao meu lado, encomendando a minha alma, e o seu terço quebrou, e ela se levantou assustada, e saiu gritando da sala. E um vento forte e caloroso soprou, fechei os olhos e senti essa brisa calorosa soprando em meu rosto, e quando abri os olhos ela estava lá na minha frente, às vezes alta, às vezes baixa, ora quente, ora fria; mas sempre bela, mesmo quando está enfurecida. E me disse: eu sabia que você voltaria!